Em 1985, na praia do Porto das Dunas, em Aquiraz-Ce, iniciou-se um restaurante à beira mar. Hoje, temos um imenso complexo turístico. Antes, a praia do Porto das Dunas era apenas uma praia isolada que abrigava uma comunidade de pescadores. Hoje, pescar de jangada nem pensar.

Um dia, prevendo a invasão do homem em nosso litoral, a apropriação de casas e terrenos à beira mar, a especulação imobiliária, a privatização da praia e a maldade humana, um velho e sábio pescador e morador da Prainha, o senhor Amor, escreveu este verso:

“Quem conheceu a Prainha, há muitos anos atrás
Era uma Prainha antiga do pai, do pai dos meus pais
Pode observar que hoje tá diferente demais.

Não tem uma pessoa para nos orientar
Chegando só o turista nesse nosso Ceará
Vem aqui na minha praia, só tomar banho de mar.

Era eles advogado, deputado, doutor
Falava um português claro, iludia o pescador
‘Se eu ficar morando aqui, vou ser seu protetor’.

Pois assim tomaram conta da nossa antiga Prainha
Que há muito tempo ela existe, nem é tua e nem é minha
Porque de todas as praias ela hoje é a rainha.

Eu chamo é de invasor, que invadiu nossas terras
Eu tô lutando mais tarde pra com eles fazer guerra
Porque o povo da praia, minha amiga, aqui já era.

Oh, se eu sou pescador, tenho direito o lugar
Para fazer meu barraco, perto da beira do mar
Eu quero que este direito todo mundo vai me dar.

Dia desse eu fui, no Patrimônio da União
Falar sobre estas terras, lá não me deram atenção
Eu disse: acabei de crer, só dão valor o barão.

Gente que chega na praia dizendo que é um doutor
Aquele não vale nada, apenas é um corretor
Cercou tudo e vendeu logo, seja lá por quanto for.

Mas se nós fosse protegido por deputado e doutor
Se os órgãos federais olhasse pro pescador
Só assim na nossa praia, nós podíamos ter valor.

Vou terminar estes versos, mas no papel fica escrito
Eu sou um dos pescadores, moro no mesmo distrito
Desculpe os erros que tenho, do seu amigo de bem.”

(Paulo Horácio de Brito)

Não se quer aqui barrar o desenvolvimento, o que foi feito está aí e não vai mudar, já levamos a porrada e deixamos a dor passar. Mas se quer aqui alertar até que ponto leva o homem a massacrar vidas, costumes, culturas em uso do poder econômico, ajudado pelo poder político, pela posse da nossa mãe terra sem sequer compartilhar. Se quer aqui, mostrar que o problema não está no desenvolvimento em si, mas na forma como o o homem busca e mantem tal desenvolvimento. Pena mesmo é não poder resgatar a cultura perdida. Resta a esperança, então, na preservação do que nos resta.

Por Joaquim Paiva
Relações Públicas da AGAGE